Peça a alguém para tocar uma peça em que vem trabalhando há um mês e feche discretamente a partitura. Acontece algo revelador. A primeira linha se sustenta. A segunda vacila. Lá pelo compasso nove tudo para — quase sempre num ponto que a pessoa juraria conhecer.
Nada mudou na execução naquele instante. As mãos são as mesmas, o andamento é o mesmo. O que mudou é que a página parou de preencher as lacunas por você.
A partitura trabalha mais do que você imagina
Enquanto a música está à sua frente, ler e lembrar parecem a mesma atividade. Não são. Seus olhos te resgatam o tempo todo: uma dedilhação que você nunca escolheu conscientemente, uma repetição que teria passado batido, o instante exato em que a mão esquerda volta. Você tocou aquele trecho quarenta vezes sem nunca ter precisado produzi-lo sozinho.
É por isso que uma peça pode parecer pronta e desmoronar assim que você desvia o olhar. Não há nada de errado no seu estudo: a página vinha carregando uma parte da peça por você, e não havia como saber qual.
Memória são quatro coisas, não uma
Quem memoriza bem raramente confia só nos dedos. A memória muscular é rápida e confortável — e também é a primeira a te abandonar sob pressão: uma hesitação e a corrente se rompe, porque ela não faz ideia de onde está.
Abaixo dela existem três mais sólidas. A memória auditiva: você ouve a próxima frase antes de tocá-la. A memória visual: você enxerga o desenho da página ou a posição da mão. E a memória analítica: você sabe que o compasso 17 é o 5 de novo, uma terça acima, e que a seção central está no relativo menor. É a mais lenta de construir e a única que realmente te recoloca nos trilhos depois de um tropeço.
Memorize enquanto aprende, não depois
Quase todo mundo trata a memorização como etapa final, quando as notas já estão seguras. É a ordem mais difícil possível. A essa altura você passou semanas treinando os olhos para fazer o trabalho, e desfazer isso custa mais do que aprender.
Faça o contrário. Pegue quatro compassos — não uma página, quatro compassos. Leia, toque duas vezes, depois desvie o olhar e toque de novo. Se desabar, volte à página, ache o motivo e repita. Quatro compassos por dia dão cerca de uma página por semana: mais rápido do que quase qualquer um consegue deixando para a última hora.

Seu repertório no Go Practice Music, com as horas registradas em cada peça que você mantém viva.
Pratique começar pelo meio
Em apresentação, a memória quase nunca falha por puro esquecimento: falha porque você perde o fio e não tem de onde recomeçar além do início. O remédio é pouco glamouroso: escolha cinco ou seis pontos de partida na peça e pratique começar do zero a partir de cada um.
Se você consegue começar no início da seção central sem impulso, você conhece aquela seção em vez de apenas chegar até ela. Se não consegue, achou a próxima coisa a trabalhar — uma informação que mais uma passada inteira jamais te daria.
Dê a ela dias, não uma tarde
A memória se consolida entre as sessões, não durante elas. Um trecho repetido vinte vezes hoje à tarde estará mais inseguro à noite e mais firme amanhã: isso é normal, não sinal de erro. Cinco encontros curtos em cinco dias seguram muito melhor do que um cerco longo, e a peça continuará lá depois de uma semana de pausa.
Deixe o registro dizer onde você está
Memorizar é um trabalho lento e silencioso, e é fácil sentir que nada está acontecendo. É aí que um registro escrito se paga. Manter suas peças numa lista de repertório — com as horas acumuladas em cada uma — transforma uma vaga sensação de progresso em algo verificável: qual peça você realmente habitou e qual você pretende retomar desde junho.
Toque a primeira linha de algo que aprendeu há dois anos: provavelmente ainda está lá. É isso que memorizar de fato te dá — não um truque de salão, mas uma pequena coleção de peças que você carrega consigo, prontas sempre que houver um instrumento na sala.
Pratique de forma mais inteligente, a partir de hoje
Metrônomo, timer de prática, leitura de notas, treino rítmico e mais — download gratuito.
Grátis · iPhone, iPad & Android