Quase todo mundo sabe que deveria aquecer. Quase ninguém aquece. Abre-se o estojo, coloca-se na estante a peça que importa e, trinta segundos depois, você já está atacando o compasso mais difícil — mãos frias, ouvidos dispersos e um corpo que ainda não se lembrou do que deveria fazer.
Depois a sessão corre mal e a conclusão é que a passagem é difícil. Muitas vezes não é. Você só ainda não estava pronto para tocá-la.
O aquecimento é para a sua atenção, não só para as mãos
O lado físico é real: dedos frios são menos precisos e um ombro frio se contrai sem pedir licença. Mas o efeito maior do aquecimento é mental. Quase todos chegamos ao instrumento ainda carregando o resto do dia — uma conversa, um prazo, um telefone que acabou de vibrar. Tocar algo simples e familiar dá à sua atenção um lugar para pousar antes de você pedir a ela um trabalho difícil.
Por isso um aquecimento deve ser fácil o bastante para ser entediante. Notas longas, escalas lentas, cordas soltas, um padrão de cinco dedos: material que não exige resolver problemas, para que seus ouvidos escutem em vez de sua cabeça decifrar.
O que custa, em silêncio, pular essa parte
O primeiro custo é a tensão. Quando as mãos não estão prontas, você compensa com força — e força é hábito. Estude uma passagem contraído por vinte minutos e terá ensinado a si mesmo a tocá-la contraído.
O segundo é a precisão. Os erros dos primeiros minutos a frio não são neutros: são repetições como quaisquer outras, e o seu corpo as arquiva com o mesmo cuidado que dedica às boas.
O terceiro ninguém percebe até que seja tarde: a lesão. Problemas de tendão em músicos raramente vêm de uma sessão dramática. Constroem-se devagar, a partir de centenas de começos feitos com mãos frias e rígidas.
Dez minutos sem pressa bastam
Um aquecimento não precisa ser um ritual de doze partes. Dez minutos, mais ou menos com este formato, cobrem quase tudo.
Dois ou três minutos só de som: notas longas, sons sustentados, arcadas lentas, acordes mantidos. Ouça o começo e o fim de cada nota, nada mais. Depois quatro ou cinco minutos de movimento simples — escalas ou arpejos num andamento que pareça ligeiramente lento demais, tocados com regularidade. Em seguida, dois ou três minutos de algo que você já toca bem, uma peça terminada há meses. Isso lembra às suas mãos como é a facilidade antes de você lhes pedir dificuldade.

Ligue o cronômetro assim que pegar o instrumento — o aquecimento conta no seu dia como tudo o mais.
Mantenha-o separado da peça que lhe importa
O erro mais comum é usar a peça difícil como aquecimento. Parece eficiente. Não é. Você acaba gastando seus minutos mais frescos e concentrados tocando mal, e os menos lúcidos consertando o que estragou.
Dê ao aquecimento o seu próprio espaço no início da sessão e deixe a peça começar quando você realmente for capaz de tocá-la. Vai descobrir muitas vezes que a passagem contra a qual luta há uma semana é simplesmente mais fácil no décimo segundo minuto do que no primeiro.
Cronometre em vez de estimar
Aquecimentos derivam. Sem relógio, encolhem para noventa segundos porque você está impaciente, ou incham para vinte e cinco minutos porque as escalas são confortáveis e a peça nova não é. Ambos são modos de evitar a sessão.
Ligar um cronômetro resolve isso quase sozinho. No Go Practice Music você pode iniciar o cronômetro no momento em que pega o instrumento e deixá-lo correr sobre a peça que está estudando: assim o aquecimento deixa de ser tempo não contado e passa a fazer parte da sua prática, contado como todo o resto. Vê-lo no seu registro é também o jeito de descobrir se você realmente o faz ou apenas acredita que faz.
O mesmo começo, todos os dias
O que importa num aquecimento não são os exercícios. É a transição: do resto da sua vida para os vinte ou sessenta minutos em que você é músico. Uma rotina que se repete sem pensar vira um sinal, e depois de algumas semanas esse sinal faz metade do trabalho. Você senta, toca a primeira nota longa e a sua atenção chega sozinha.
Curto, entediante e sempre igual. Então comece a peça.
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